Saturday, July 19, 2008

the story

E folheando livros ela percebeu que quem escreve, exterioriza. Desabafa, se entrega e escapa do pudor da palavra dita, libertando o pensamento em caracteres. Se parece assim tão bonito, por que será então que aquele que escreve se deixa barrar pela vergonha e conta o que é seu sob o nome de outro? É sempre um personagem, alguém criado do rascunho que é o escritor. De repente, aquilo que é seu, tão subjetivamente seu, passa a ser de outra menina, que vive em outro lugar - quase sempre chuvoso - e, caso existisse senão como disfarce, seria também bem diferente de você.

E então quem lê entende que o amor de alguém vira jogo em canção. A vida vira poeira no vento, a garota pode ser flor e o tempo que passa sempre tão sofrido pode bem ser, em verdade, alguns minutos de tédio em frente à televisão. Abraço é dança, três meses são eternidade, paraíso é embaixo do cobertor e toda a dor do mundo é o sofrimento comum.

O "eu" é então substituído por outro qualquer e as circunstâncias são sutilmente disfarçadas, para a própria conveniência de quem desabafa - e se alguém ler? Não pode saber o que quer que todos saibam: que o amor não acabou, que a lembrança existe, que o cotidiano dói e que a vida dele é, por algum motivo, especialmente ordinária. Troca "ele" por "ela", usa o nome da vizinha e recria ambientes com alguns detalhes que antes não existiam. Mas é o que se pode fazer: a palavra é livre, mas quem escreve não é.

Ela sou eu, livro é blog e o escritor é, na verdade, uma pessoa só. Mas não posso contar quem é.E se alguém ler?